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João Sezinando
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Fotografia de rua/O leitor
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Fotografia de rua/O leitor
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descrição
Há coisas que não sei fazer muito bem, ler é uma delas.
Ler, não parece ser muito difícil, mas é obra! É obra das grandes! Não é fácil olhar para todas estas filas de risquinhos e bolinhas, junta-los em molhinhos e dar-lhes um sentido.
Andei na escola quando era pequeno, mas foi por pouco tempo. Foi preciso começar a trabalhar cedo para ajudar em casa... o meu pai desapareceu no mar era eu moço pequeno e todos tivemos de ajudar a minha mãe a manter a casa.
Na altura, não me custou deixar a escola. Não tinha muita paciência para aquilo. Adormecia nas aulas, não prestava atenção, não fazia os trabalhos, mas era o campeão das reguadas na minha sala!
Sempre que podia fazia gazeta! Quando tive de ir trabalhar e deixar a escola, fui o moço mais feliz do mundo!
Nesses tempos eu não acreditava que a escola e o que lá se aprendia, fizessem falta para a vida.

Quando fui chamado à inspeção para ir para a tropa, fiquei livre.
Para mim ficar livre foi bom, não tive de assentar praça. No entanto foi talvez a primeira vez que eu vi a falta que fazia a escola, ou pelo menos o saber ler. De todos os que estavam naquela sala, fui o único que ficou livre por não saber ler.
A segunda vez, foi um dia em que estávamos na tasca, eu e os meus irmãos, em cima de uma mesa estava um jornal meio aberto e um dos meus irmão começou a dizer:
- Eh pá! Eh pá! Que desgraça tão grande!
Então perguntei-lhe o que era e ele sempre a olhar para o jornal respondeu-me:
- Estamos aqui três homens, adultos, a olhar para um jornal e nenhum sabe o que lá diz! Que desgraça! - e desatou a rir.
Para mim foi triste, não tive vontade de rir!
A vida foi-me madrasta e a ideia que tinha de ir para a escola de adultos aprender, não me foi possível.
A terceira situação e a que me fez ganhar força para aprender foi quando precisei de tirar a carta de condução. Sem saber ler não podia tirar a carta.
Resolvi o problema comprando a carta, não foi barata mas fiquei a poder conduzir, mesmo sem saber ler.
Resolvi também aprender a ler e como na Sociedade Recreativa lá do bairro davam aulas à noite, fui aprender e depois fiz o exame de adultos. Não era vida continuar a falsear as coisas e manter-me ignorante.
Hoje tenho orgulho de saber ler!
Gosto de me vir sentar aqui na rua, com uma revista ou um jornal bem aberto para que toda a gente veja e possa comentar que o Ganhão está a ler!
Quer dizer, por vezes as palavras são estranhas, coisas estrangeiras e aí só vejo as fotografias... bem bonitas por sinal. Também ninguém precisa saber que vejo mais as fotografias do que leio... ás vezes penso que o importante mesmo nem é saber ler, é o que pensam de mim quando me vêem aqui de revista na mão! As aparências contam mais do que se pensa!
Mas pronto, também conta o saber ler! Pouco, mas conta... estou a ser um tretas, no fundo se eu continuasse a não saber ler, tinha uma vida mais triste.
Ser ignorante não nos torna mais felizes, apesar de eu já ter lido que houve um doutor que que disse que: “Quanto mais ignorante, mais feliz é o povo!”. É assim, se eu não tivesse aprendido a ler, nunca teria sabido que um doutor era capaz de dizer uma asneira tão grande!
exif / informação técnica
Máquina: LEICA CAMERA AG
Modelo: C-Lux
Exposição: 1/1600
Abertura: f/6.4
ISO: 200
Distância Focal: 873/10
Software: Adobe Photoshop CS6 (Windows)
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O leitor
Há coisas que não sei fazer muito bem, ler é uma delas.
Ler, não parece ser muito difícil, mas é obra! É obra das grandes! Não é fácil olhar para todas estas filas de risquinhos e bolinhas, junta-los em molhinhos e dar-lhes um sentido.
Andei na escola quando era pequeno, mas foi por pouco tempo. Foi preciso começar a trabalhar cedo para ajudar em casa... o meu pai desapareceu no mar era eu moço pequeno e todos tivemos de ajudar a minha mãe a manter a casa.
Na altura, não me custou deixar a escola. Não tinha muita paciência para aquilo. Adormecia nas aulas, não prestava atenção, não fazia os trabalhos, mas era o campeão das reguadas na minha sala!
Sempre que podia fazia gazeta! Quando tive de ir trabalhar e deixar a escola, fui o moço mais feliz do mundo!
Nesses tempos eu não acreditava que a escola e o que lá se aprendia, fizessem falta para a vida.

Quando fui chamado à inspeção para ir para a tropa, fiquei livre.
Para mim ficar livre foi bom, não tive de assentar praça. No entanto foi talvez a primeira vez que eu vi a falta que fazia a escola, ou pelo menos o saber ler. De todos os que estavam naquela sala, fui o único que ficou livre por não saber ler.
A segunda vez, foi um dia em que estávamos na tasca, eu e os meus irmãos, em cima de uma mesa estava um jornal meio aberto e um dos meus irmão começou a dizer:
- Eh pá! Eh pá! Que desgraça tão grande!
Então perguntei-lhe o que era e ele sempre a olhar para o jornal respondeu-me:
- Estamos aqui três homens, adultos, a olhar para um jornal e nenhum sabe o que lá diz! Que desgraça! - e desatou a rir.
Para mim foi triste, não tive vontade de rir!
A vida foi-me madrasta e a ideia que tinha de ir para a escola de adultos aprender, não me foi possível.
A terceira situação e a que me fez ganhar força para aprender foi quando precisei de tirar a carta de condução. Sem saber ler não podia tirar a carta.
Resolvi o problema comprando a carta, não foi barata mas fiquei a poder conduzir, mesmo sem saber ler.
Resolvi também aprender a ler e como na Sociedade Recreativa lá do bairro davam aulas à noite, fui aprender e depois fiz o exame de adultos. Não era vida continuar a falsear as coisas e manter-me ignorante.
Hoje tenho orgulho de saber ler!
Gosto de me vir sentar aqui na rua, com uma revista ou um jornal bem aberto para que toda a gente veja e possa comentar que o Ganhão está a ler!
Quer dizer, por vezes as palavras são estranhas, coisas estrangeiras e aí só vejo as fotografias... bem bonitas por sinal. Também ninguém precisa saber que vejo mais as fotografias do que leio... ás vezes penso que o importante mesmo nem é saber ler, é o que pensam de mim quando me vêem aqui de revista na mão! As aparências contam mais do que se pensa!
Mas pronto, também conta o saber ler! Pouco, mas conta... estou a ser um tretas, no fundo se eu continuasse a não saber ler, tinha uma vida mais triste.
Ser ignorante não nos torna mais felizes, apesar de eu já ter lido que houve um doutor que que disse que: “Quanto mais ignorante, mais feliz é o povo!”. É assim, se eu não tivesse aprendido a ler, nunca teria sabido que um doutor era capaz de dizer uma asneira tão grande!
Tag’s: Leitor,Retrato,Fotografia de rua,P&B
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Máquina: LEICA CAMERA AG
Modelo: C-Lux
Exposição: 1/1600
Abertura: f/6.4
ISO: 200
Distância Focal: 873/10
Software: Adobe Photoshop CS6 (Windows)

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