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Paisagem Natural/"Impermanência"
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"Impermanência"

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Paisagem Natural

2020-06-04 16:02:53
comentários (6) galardões descrição exif favorita de (23)
descrição
Impermanência" | Ponta do Rosto, Ilha da Madeira

A única coisa que podemos tomar por garantida, para além da morte física, é a tendência constante de mudança, numa vida que teimosamente queremos que seja sempre estável e previsível. A "Impermanência" é uma das três verdades nobres do Budismo, encontrando eco em tantas outras religiões e filosofia, sob nomes diferentes.

A "felicidade" foi uma vez inteligentemente reduzida a uma simples equação, que dizia que esta é o resultado da "realidade menos as expectativas". Apesar de tal equação ser abusivamente reduccionista, contém um forte elemento de verdade na sua simples e elegante descrição. Todos os dias acordamos com planos, aspirações, desejos, com o nosso bem-estar a ser uma consequência da quantidade de metas irrealistas e inatingíveis que conseguimos conquistar nesse dia. Infelizmente, até o mais rotineiro dos dias nos irá presentear com obstáculos inesperados, muitos até vindos do interior, pelo que as probabilidades de se terminar um dia auspicioso preenchido apenas por frustração se tornam bastante elevadas.

Isto é obviamente mais fácil de dizer do que fazer, mas aceitar a natureza absolutamente transitória de todos os eventos na vida é uma das mais poderosas ferramentas para atingir maior liberdade interna. Isto já está hoje apoiado por evidência científica, em que o desapego das limitações constantes de se estar viciado em validação e conquistas, conduz a uma satisfação muito superior com a vida e, paradoxalmente, permite conseguir mais dessas mesmas conquistas.

Ser fotógrafo de paisagem implica tem uma relação de amor-ódio com a "impermanência". Adoramos e abraçamos a imprevisibilidade dos elementos, mas não há nada pior que três dias seguidos de clima miserável e oportunidades perdidas. Mesmo sabendo que são aqueles breves períodos de luz no meio de uma tempestade que podem criar as fotos mais épicas, questionamo-nos muitas vezes sobre onde está o "limite", especialmente quando se está, por exemplo, num lugar remoto, numa falésia, debaixo de ventos fortes, a falhar de todas as formas em conseguir uma foto decente, que actualmente começa a tornar-se possível falsear com apenas alguns clicks no computador.

Acordei extremamente cedo para fazer esta imagem, já que a previsão do tempo parecia extremamente promissora naquela manhã de Outubro de 2019, e as minhas tentativas prévias de fazer uma boa foto neste spot tinham falhado. Utilizei o "Windy" para a previsão metereológica, e tinha a noção de que iria chegar uma forte tempestade à ilha por volta das 10 da manhã, dando-me tempo de sobra para fotografar o nascer do sol. Aquilo que não estava de todo à espera era que os Deuses do Tempo me iriam presentear com mais uma forte lição de impermanência, antecipando a tempestade em 3 horas (precisamente para a altura do nascer do sol), tempestade esta que bloquearia inclusivamente todos os voos na Ilha da Madeira durante toda a manhã!

Tinha acabado de colocar o tripé para fazer a primeira composição do local, e o céu estava muitíssimo promissor, começando a encher-se de tons dourados e avermelhados. Em cerca de 30 segundos, uma nuvem gigantesca, densa e escura começou a surgir detrás de mim, preenchendo a quase totalidade do céu a uma velocidade impressionante, com ventos fortíssimos a surgir do nada, levantando quantidades enormes de areia e poeira no ar. Apenas tive tempo de colocar rapidamente a máquina no tripé, colocar os filtros, e apenas foi possível efectuar dois disparos antes de ter que ir a correr para o carro. A minha companheira decidiu fotografar de um local um pouco mais distante, pelo que chegou 2 minutos mais tarde, com areia em todos os poros da roupa e do equipamento!

O que podem ver nesta imagem é precisamente o último minuto de luz do nascer do sol, a tentar irromper através das nuvens densa da tempestade, mesmo antes de ser engolido pela mesma. A impermanência não é apenas medo, também contém muita beleza...

Sony a7R + Laowa 10-18mm f4.5-f5.6 | Exposure: 30 seconds | Aperture: f11 | ISO: 50 | Manual focus | 4 stops Medium Grad filter, 4 stops full ND Nisi | FLM Tripod
exif / informação técnica
Máquina: SONY
Modelo: ILCE-7R
Exposição: 30 sec
Exposição (EV+/-): 0 step
Abertura:
ISO: 200
Dist.Focal:
Dist.Focal (35mm):
Software: Adobe Photoshop CC 2018 (Windows)

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"Impermanência"
Impermanência" | Ponta do Rosto, Ilha da Madeira

A única coisa que podemos tomar por garantida, para além da morte física, é a tendência constante de mudança, numa vida que teimosamente queremos que seja sempre estável e previsível. A "Impermanência" é uma das três verdades nobres do Budismo, encontrando eco em tantas outras religiões e filosofia, sob nomes diferentes.

A "felicidade" foi uma vez inteligentemente reduzida a uma simples equação, que dizia que esta é o resultado da "realidade menos as expectativas". Apesar de tal equação ser abusivamente reduccionista, contém um forte elemento de verdade na sua simples e elegante descrição. Todos os dias acordamos com planos, aspirações, desejos, com o nosso bem-estar a ser uma consequência da quantidade de metas irrealistas e inatingíveis que conseguimos conquistar nesse dia. Infelizmente, até o mais rotineiro dos dias nos irá presentear com obstáculos inesperados, muitos até vindos do interior, pelo que as probabilidades de se terminar um dia auspicioso preenchido apenas por frustração se tornam bastante elevadas.

Isto é obviamente mais fácil de dizer do que fazer, mas aceitar a natureza absolutamente transitória de todos os eventos na vida é uma das mais poderosas ferramentas para atingir maior liberdade interna. Isto já está hoje apoiado por evidência científica, em que o desapego das limitações constantes de se estar viciado em validação e conquistas, conduz a uma satisfação muito superior com a vida e, paradoxalmente, permite conseguir mais dessas mesmas conquistas.

Ser fotógrafo de paisagem implica tem uma relação de amor-ódio com a "impermanência". Adoramos e abraçamos a imprevisibilidade dos elementos, mas não há nada pior que três dias seguidos de clima miserável e oportunidades perdidas. Mesmo sabendo que são aqueles breves períodos de luz no meio de uma tempestade que podem criar as fotos mais épicas, questionamo-nos muitas vezes sobre onde está o "limite", especialmente quando se está, por exemplo, num lugar remoto, numa falésia, debaixo de ventos fortes, a falhar de todas as formas em conseguir uma foto decente, que actualmente começa a tornar-se possível falsear com apenas alguns clicks no computador.

Acordei extremamente cedo para fazer esta imagem, já que a previsão do tempo parecia extremamente promissora naquela manhã de Outubro de 2019, e as minhas tentativas prévias de fazer uma boa foto neste spot tinham falhado. Utilizei o "Windy" para a previsão metereológica, e tinha a noção de que iria chegar uma forte tempestade à ilha por volta das 10 da manhã, dando-me tempo de sobra para fotografar o nascer do sol. Aquilo que não estava de todo à espera era que os Deuses do Tempo me iriam presentear com mais uma forte lição de impermanência, antecipando a tempestade em 3 horas (precisamente para a altura do nascer do sol), tempestade esta que bloquearia inclusivamente todos os voos na Ilha da Madeira durante toda a manhã!

Tinha acabado de colocar o tripé para fazer a primeira composição do local, e o céu estava muitíssimo promissor, começando a encher-se de tons dourados e avermelhados. Em cerca de 30 segundos, uma nuvem gigantesca, densa e escura começou a surgir detrás de mim, preenchendo a quase totalidade do céu a uma velocidade impressionante, com ventos fortíssimos a surgir do nada, levantando quantidades enormes de areia e poeira no ar. Apenas tive tempo de colocar rapidamente a máquina no tripé, colocar os filtros, e apenas foi possível efectuar dois disparos antes de ter que ir a correr para o carro. A minha companheira decidiu fotografar de um local um pouco mais distante, pelo que chegou 2 minutos mais tarde, com areia em todos os poros da roupa e do equipamento!

O que podem ver nesta imagem é precisamente o último minuto de luz do nascer do sol, a tentar irromper através das nuvens densa da tempestade, mesmo antes de ser engolido pela mesma. A impermanência não é apenas medo, também contém muita beleza...

Sony a7R + Laowa 10-18mm f4.5-f5.6 | Exposure: 30 seconds | Aperture: f11 | ISO: 50 | Manual focus | 4 stops Medium Grad filter, 4 stops full ND Nisi | FLM Tripod
Tag’s: madeira,ponta do rosto,nascer do sol,portugal,ilha
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    a nossa
    escolha

Máquina: SONY
Modelo: ILCE-7R
Exposição: 30 sec
Exposição (EV+/-): 0 step
Abertura:
ISO: 200
Dist.Focal:
Dist.Focal (35mm):
Software: Adobe Photoshop CC 2018 (Windows)


favorita de (23)