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Gentes e Locais/fado vadio
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descrição

Escadinhas de São Cristóvão
Bairro da Mouraria - Lisboa



degraus, degraus e degraus...*
Roubo as palavras ao poeta e vou subindo, pelas Escadinhas de São Cristóvão, em olhar recuado tornado novo, desde a Rua da Madalena até à Costa do Castelo...

O mural envelheceu, alguns lhe foram sobrepondo motivos inúteis e as cores já desmaiaram, talvez pelo cansaço de tanto flash disparado pela noite fora. Valha, em destaque, a janelinha a preto e branco, servindo de moldura à senhora do carrapito espreitando, empoleirada lá bem no cimo, como marco irreverente na pintura...

Subo. Circundo a Igreja de São Cristóvão e passo pela travessa do Eurico, onde a cozinheira, minha homónima, distribuía travessas com postas de bacalhau e grão a fumegar, pelas mesas estreitinhas e compridas, ladeadas por caras de cá e de lá, e onde os almoços tinham gosto a fado vadio... Mais à frente e já no largo, tantas vezes virado anfiteatro apinhado, na esquina amarela, a Achada, Casa de mil Kantatas, onde se conjugam os verbos fazer e acontecer, e onde todos cabem, com todos os seus saberes mesmo sem voz...

E continuo a subir, lentamente, pelas dobras sucessivas das escadas. No nº 10, a moradora de saída da sua casa branca, baixinha, surpreende-me com a mão cruzada no peito e pergunta-me, decidida e com voz de mel: vem cansada...?! Digo-lhe que não e que o gesto tinha outro sentido... Sorri, muito agradada, à despedida, ao saber-me a saborear a subida do bairro que é seu e de uma vida. Ela desce, e eu vou subindo...

Chegada à Costa do Castelo, de bem perto, a Ermelinda faz-me um aceno do seu postigo azul, debruado de azulejos que vestem toda a casa, e diz-me: hoje não vou, já avisei, estou constipada e sinto-me cansada... ó filha, já estou velha para estas coisas... Rio-me, e digo-lhe: está bem, Ermelinda... mas amanhã esperamos por si, já sabe que ninguém a substitui...! Já passou dos quatro vintes, mulher de vozeirão, só ela sabe gritar ainda os pregões de Lisboa e dizer as lengalengas, antigas e bem compridas, sem pestanejar, para deleite de todas as idades...
Logo a seguir, chego à porta do Taborda. Pelas escadas anda-se veloz, cima abaixo, baixo acima, sempre com um olá de boas-vindas, seja em andamento, seja em pausa por curto instante. Passo a marquise envidraçada, de novo deslumbrada, olhando Lisboa em vista larga, numa meia lua desde a Graça até ao Tejo... e entro no terraço, onde o chão está cimentado de emoções havidas e trocadas, entre estreias e ensaios da Garagem...

Regresso, e pelo mesmo caminho, que é sempre o mais bonito..., espiando o casario revelado a cada esquina e a cada lance, ao som do guinchar dos elétricos nos carris, que chega, de longe, lá de baixo. Desço as escadinhas do santo, degraus, degraus e degraus... e devolvo as palavras ao poeta.

* de versos do poema Lisboa, de Eugénio de Andrade

exif / informação técnica
Máquina: Panasonic
Modelo: DMC-TZ7
Exposição: 1/400
Abertura: f/3.3
ISO: 80
Distância Focal: 41/10
Software: Ver.1.3
favorita de 30
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fado vadio

Escadinhas de São Cristóvão
Bairro da Mouraria - Lisboa



degraus, degraus e degraus...*
Roubo as palavras ao poeta e vou subindo, pelas Escadinhas de São Cristóvão, em olhar recuado tornado novo, desde a Rua da Madalena até à Costa do Castelo...

O mural envelheceu, alguns lhe foram sobrepondo motivos inúteis e as cores já desmaiaram, talvez pelo cansaço de tanto flash disparado pela noite fora. Valha, em destaque, a janelinha a preto e branco, servindo de moldura à senhora do carrapito espreitando, empoleirada lá bem no cimo, como marco irreverente na pintura...

Subo. Circundo a Igreja de São Cristóvão e passo pela travessa do Eurico, onde a cozinheira, minha homónima, distribuía travessas com postas de bacalhau e grão a fumegar, pelas mesas estreitinhas e compridas, ladeadas por caras de cá e de lá, e onde os almoços tinham gosto a fado vadio... Mais à frente e já no largo, tantas vezes virado anfiteatro apinhado, na esquina amarela, a Achada, Casa de mil Kantatas, onde se conjugam os verbos fazer e acontecer, e onde todos cabem, com todos os seus saberes mesmo sem voz...

E continuo a subir, lentamente, pelas dobras sucessivas das escadas. No nº 10, a moradora de saída da sua casa branca, baixinha, surpreende-me com a mão cruzada no peito e pergunta-me, decidida e com voz de mel: vem cansada...?! Digo-lhe que não e que o gesto tinha outro sentido... Sorri, muito agradada, à despedida, ao saber-me a saborear a subida do bairro que é seu e de uma vida. Ela desce, e eu vou subindo...

Chegada à Costa do Castelo, de bem perto, a Ermelinda faz-me um aceno do seu postigo azul, debruado de azulejos que vestem toda a casa, e diz-me: hoje não vou, já avisei, estou constipada e sinto-me cansada... ó filha, já estou velha para estas coisas... Rio-me, e digo-lhe: está bem, Ermelinda... mas amanhã esperamos por si, já sabe que ninguém a substitui...! Já passou dos quatro vintes, mulher de vozeirão, só ela sabe gritar ainda os pregões de Lisboa e dizer as lengalengas, antigas e bem compridas, sem pestanejar, para deleite de todas as idades...
Logo a seguir, chego à porta do Taborda. Pelas escadas anda-se veloz, cima abaixo, baixo acima, sempre com um olá de boas-vindas, seja em andamento, seja em pausa por curto instante. Passo a marquise envidraçada, de novo deslumbrada, olhando Lisboa em vista larga, numa meia lua desde a Graça até ao Tejo... e entro no terraço, onde o chão está cimentado de emoções havidas e trocadas, entre estreias e ensaios da Garagem...

Regresso, e pelo mesmo caminho, que é sempre o mais bonito..., espiando o casario revelado a cada esquina e a cada lance, ao som do guinchar dos elétricos nos carris, que chega, de longe, lá de baixo. Desço as escadinhas do santo, degraus, degraus e degraus... e devolvo as palavras ao poeta.

* de versos do poema Lisboa, de Eugénio de Andrade

Tag’s: Escadinhas de São Cristóvão,Bairro da Mouraria,Casa da Achada,Teatro Taborda,Teatro da Garagem,Lisboa,fado vadio
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Máquina: Panasonic
Modelo: DMC-TZ7
Exposição: 1/400
Abertura: f/3.3
ISO: 80
Distância Focal: 41/10
Software: Ver.1.3