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Gentes e Locais/Da Sombra
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Gentes e Locais/Da Sombra
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descrição
Da Sombra ou nota para um novo livro (II)

A NOITE SE DEBRUÇA VAGAROSAMENTE SOBRE BARREIROS. Exausta de tanto mar, uma canoa descansa sobre as estivas. E o mar, agitado pelo ameno vento nordeste, embala a pedra Gurita. É possível, nesse momento, ouvirmos uma toada revestida de maresia – o roçar das ondas na areia da praia, o bater das asas de uma garça que retorna ao ninho, o pipilar de uma gaivota pousada numa pedra. É possível, também, nesse momento, apreciarmos uma dança que rompe o sal do silêncio – o ondear das boias de uma rede de pesca, o vai e vem das folhas de um pé de castanheira, o balançar de um barco ancorado. A luz do dia se desmancha; funde-se na sombra da noite. E, em Barreiros, tudo se converte em cansaço – o Trabalho, o Saber, o Amor. Ainda assim, no costão da Serraria, um homem – na verdade, um vulto – um homem se abaixa e enfia as mãos no lodo; recolhe berbigão. Massa flácida e inidentificável, o homem se move cuidadosamente, engendrando uma comunhão entre o seu corpo e a lama. Dessa síntese, a sobrevivência. Na praia, uma cadela o espera. Está sentada. De quando em quando choraminga, como se estivesse ferida ou assustada. Mas não está ferida nem assustada. Apenas espera, e espera, e observa o homem. Este e a cadela, assim como a noite, são sombras. Mas sombras também têm nome – Elias, o homem; Uma, a cadela. Elias se ergue. Risca um fósforo. Acende um cigarro de palha; traga-o. E sente um prazer salgado. Uma também se ergue – acompanharia o traçado que o braseiro do cigarro de palha desenha no breu da noite? Parece que não. É apenas um fato, um tolo fato: a cadela se ergue. Elias apaga o cigarro. Caminha. Busca o equilíbrio – os pés afundando na lama. Já na praia, sacode a lama dos pés. Uma, quiçá imitando o homem, sacode a areia do pelo. Elias assobia e chama Uma. Esta corre e salta sobre o corpo daquele. Uma protege Elias, que cuida de Uma. São parceiros. Dividem o chão, o mar de Barreiros, a mesma miséria... Vivem juntos porque a sobrevivência assim os quer. No breu da noite, os dois rolam na areia da praia. Ali, nesse momento, outra comunhão: homem-animal-terra-mar. E já não há mais Elias. Já não há mais Uma. Voltam a ser sombras, nada mais.
exif / informação técnica
Máquina: Canon
Modelo: Canon EOS REBEL T3
Exposição: 1/1000
Abertura: f/7.1
ISO: 100
Distância Focal: 146/1
Software: Adobe Photoshop 22.5 (Windows)
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Da Sombra
Da Sombra ou nota para um novo livro (II)

A NOITE SE DEBRUÇA VAGAROSAMENTE SOBRE BARREIROS. Exausta de tanto mar, uma canoa descansa sobre as estivas. E o mar, agitado pelo ameno vento nordeste, embala a pedra Gurita. É possível, nesse momento, ouvirmos uma toada revestida de maresia – o roçar das ondas na areia da praia, o bater das asas de uma garça que retorna ao ninho, o pipilar de uma gaivota pousada numa pedra. É possível, também, nesse momento, apreciarmos uma dança que rompe o sal do silêncio – o ondear das boias de uma rede de pesca, o vai e vem das folhas de um pé de castanheira, o balançar de um barco ancorado. A luz do dia se desmancha; funde-se na sombra da noite. E, em Barreiros, tudo se converte em cansaço – o Trabalho, o Saber, o Amor. Ainda assim, no costão da Serraria, um homem – na verdade, um vulto – um homem se abaixa e enfia as mãos no lodo; recolhe berbigão. Massa flácida e inidentificável, o homem se move cuidadosamente, engendrando uma comunhão entre o seu corpo e a lama. Dessa síntese, a sobrevivência. Na praia, uma cadela o espera. Está sentada. De quando em quando choraminga, como se estivesse ferida ou assustada. Mas não está ferida nem assustada. Apenas espera, e espera, e observa o homem. Este e a cadela, assim como a noite, são sombras. Mas sombras também têm nome – Elias, o homem; Uma, a cadela. Elias se ergue. Risca um fósforo. Acende um cigarro de palha; traga-o. E sente um prazer salgado. Uma também se ergue – acompanharia o traçado que o braseiro do cigarro de palha desenha no breu da noite? Parece que não. É apenas um fato, um tolo fato: a cadela se ergue. Elias apaga o cigarro. Caminha. Busca o equilíbrio – os pés afundando na lama. Já na praia, sacode a lama dos pés. Uma, quiçá imitando o homem, sacode a areia do pelo. Elias assobia e chama Uma. Esta corre e salta sobre o corpo daquele. Uma protege Elias, que cuida de Uma. São parceiros. Dividem o chão, o mar de Barreiros, a mesma miséria... Vivem juntos porque a sobrevivência assim os quer. No breu da noite, os dois rolam na areia da praia. Ali, nesse momento, outra comunhão: homem-animal-terra-mar. E já não há mais Elias. Já não há mais Uma. Voltam a ser sombras, nada mais.
Tag’s: pescador,canoa,mar
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